Seu Brainstorming é ruim — um olhar acadêmico à "Chuva de palpite"
Brainstorm! Junte a equipe numa sala, dê o cenário e trace o objetivo da reunião. Deixe o povo falar, rabiscar e discutir. Busque sair com alguma coisa resolvida ou pelo menos filtrada para trabalhar. Se eu te falar que reuniões de Brainstorm como esta são as mais comuns no mundo corporativo e também as menos efetivas, você acredita?
Ela é tão pouco efetiva que os pesquisadores concluíram que somos um bando de loucos por ainda seguirmos assim depois do que observaram. Abordarei neste artigo alguns pontos pautados por estudos acadêmicos para evoluirmos juntos no modo como realizamos reuniões de Brainstorming — a famosa chuva de palpite — para trazer resolução e fomentar inovação no trabalho.
"O QUE ACHOU DO ÚLTIMO EPISÓDIO?!"
Em nosso ambiente de trabalho, temos acesso a uma série de Informações únicas, que são aquelas que só nós conhecemos, pelas nossas reuniões, network, conhecimentos e acesso. E também a Informação comum, que a maioria dos nossos colegas está informada (estavam todos na mesma reunião ou receberam o mesmo e-mail, etc).
Ocorre que nosso hábito em equipe, ao discutir qualquer assunto, é trabalhar justamente em cima das informações que temos em comum! Ao invés de 3 indivíduos trazerem informações exclusivas à mesa, eles comentam de algo que os 3 estão a par. Ao fazer isto, a informação comum é reforçada, os 3 colegas sorriem e balançam a cabeça em aprovação, felizes pois "todos estão na mesma página".
- "Ah, você também odiou o fim de Game of Thrones?!"
- "Ah, lembra do que o Gerente disse na reunião que todos nós estávamos?!"
Esta informação comum é também mais repetida em reuniões e, como resultado, ela é percebida como sendo mais crível e valiosa do que uma informação única.
FALA QUE EU TE ESCUTO?
Em reuniões com diversos participantes, algumas pessoas tendem a se apagar. Há diversos fatores para isto: baixa posição hierárquica, baixa autoridade e status. Nos retraímos quando não nos sentimos confortáveis com o tema, os participantes e a hierarquia.
Outro fator também é a clássica preguiça para brigar com os colegas que engajam mais no tempo de fala e dão palestrinha. Eu falo em tom de piada, mas um estudo apontou, em média, que 3 indivíduos num time de 8 pessoas fazem 77% de toda a conversação do grupo. Em times de 6 pessoas, 3 participantes somam 86% das falas. Como contribuir, se o time não pode sequer falar?
E aí ocorre aquele exemplo dos filmes de Hollywood, em que o faxineiro da universidade resolve toda a equação de física na lousa ao limpar a classe durante a noite. "— Oh, ninguém poderia imaginar sua contribuição!". Já no mundo real, é o caso do Estagiário ou Analista Jr. que fala alguma coisa "nada a ver" em reunião e é ignorado pelos demais.
A UNIÃO FAZ A DERROTA
Aqui é o momento "a-há!" deste texto. Brainstorms em grupo são os piores! Mais que ruim, é horrível!
Trago o resultado de um dos estudos realizados sobre o tema (Diehl and Stroebe, 1987; Paulus et al., 1993):
brainstorm em grupo
brainstorm individual
E aí você dirá que volume não é qualidade? Nesse caso científico é sim! Todas estas ideias foram avaliadas e o resultado foi que apenas 8,9% das 28 ideias em grupo foram consideradas "Boas". Já das 74,5 individuais, 25% foram classificadas como "Boas". Ou seja, o Brainstorm individual trouxe melhor performance e qualidade.
A baixa produção do Brainstorming em grupo se deve sobre a apreensão. Geralmente, é solicitado para não criticar ou avaliar a sugestão dos demais. Mas apesar disto, pesquisas mostram que o medo da avaliação faz com que não se comente e discuta as ideias mais originais e criativas.
Outro fator óbvio é o de esperar pelo tempo de fala, um limitante claro ao número de ideias que iremos comunicar em reunião. E vai além: outra pessoa falando também pode nos distrair ou mudar o rumo de nossos pensamentos.
Isto nos leva a outro fator: a "ancoragem". Muitas vezes trabalhamos a nossa comunicação de forma que ancoramos a discussão ao redor de uma ideia, alterando a visão dos demais e suas contribuições. Assim, minamos a diversidade das ideias que irão surgir.
WILSOOON!
Após toda essa desconstrução de que reunir o time não faz uma boa chuva do palpite, devo lembrar-lhe que o grupo é uma peça crucial para a tomada de decisão. Quem está sozinho numa ilha está à deriva. O propósito de atuarmos em equipe é justamente poder contar com expertises distintas e o compartilhamento de diferentes olhares sobre o trabalho.
Sabendo dos perrengues que podem surgir ao reunir todos para uma sessão de Brainstorm, mitigue cada ponto já citado e prossiga bem com o time. Faça com que aqueles que deram tantos insights como partida também deem muita colaboração para um bom fechamento da sessão.
O GUIA
Como o programa "Casos de Família", eu trouxe uma série de problemas que a maioria das reuniões de Brainstorm tem. Agora que sabemos do prejuízo, como contorná-lo?
Este é o meu guia macro para realizar uma reunião de Brainstorm de resultado:
- Brife a equipe sobre o cenário e peça um Brainstorm individual prévio, enviando por e-mail ou trazendo-o para a reunião. Se der apenas para fazer o Brainstorm no dia, limite-o por tempo.
- Trace com a equipe a média de quantas sugestões o time conseguiu elaborar. Estenda a reflexão do time por mais alguns minutos desafiando-os a atingir uma nova meta de sugestões. Estudos apontam que as ideias geradas neste "segundo round" foram percebidas com grande valor pela equipe. Sem desafiar o time desta forma, elas não viriam!
- Peça para cada membro expor brevemente suas ideias e os demais não deverão comentá-las.
- Anote todas as ideias de forma visual: cole-as na parede, projete-as na tela, etc.
- Neste momento, pode-se explicar mais sobre cada ideia ao time para fins de compreensão, e não de avaliação.
- Por fim, peça para o time votar em suas preferidas de forma individual, de maneira anônima ou ao mesmo tempo. Exemplos: peça para votarem num post-it e quando todos estiverem prontos, colarem juntos os post-its de voto ao lado da ideia no quadro.
Potencializar o time é a missão de todo líder e espero que tenha agregado novos conhecimentos para que realize melhores reuniões. Agora que compreende os fatores que influenciaram a construção deste roteiro macro para reuniões de Brainstorm, sinta-se livre para aplicá-lo e ajustá-lo em sua dinâmica. Faça com que as próximas Chuvas de palpite virem um temporal!
Diehl & Stroebe (1987) · Paulus et al. (1993) · Thompson (2013) · Paul Paulus · Adrian Fuchs / UCL